Segunda-feira, 8 de Outubro de 2001 Jornal do Brasil na rede

CIA tinha licença para matar no Brasil

 

Cientista-política conta que, em troca de recursos para treinamento, EUA tinham liberdade para agir em terras brasileiras

 

 AMAURY RIBEIRO JR, FABIANO LANA E RAPHAEL GOMIDE
 

  Marta Huggins estuda a atuação da CIA na América Latina e afirma que Robert Hayers não foi o único agente a atuar no Brasil

BRASÍLIA - O engenheiro químico americano Robert Hayes não foi o único agente da CIA (serviço secreto dos Estados Unidos) a desembarcar no Brasil para participar de ações de espionagem e repressão contra militantes de esquerda durante o regime militar (1964-1985), conforme divulgado ontem pelo Jornal do Brasil. Especialista nas relações entre a CIA e os governos latino-americanos, a cientista política americana Marta Huggins confirma que outros agentes do serviço de espionagem vieram ao Brasil com a mesma missão confiada a Hayes.

De acordo com suas pesquisas, nas décadas de 60 e 70 a CIA doou recursos para o treinamento de 100 mil policiais brasileiros. Em troca, a CIA tinha liberdade para agir no Brasil. A cientista descobriu que, em palestra secreta a senadores americanos, um diretor da CIA informou que a polícia brasileira participava de torturas. O governo brasileiro, argumentou o diretor, justificou o uso da tortura para evitar o risco de os comunistas tomarem o poder.

As pesquisas de Martha apontam que as ligações da CIA com o Brasil foram intermediadas por um organismo denominado Office of Public Safety (OPS), que oferecia técnicas de uso de armamentos até ajuda na formação de esquadrões da morte. Oficialmente, a CIA atuou no Brasil no intuito de ''democratizar os sistemas penais dos países beneficiários''. Por trás da fachada democrática, sustenta a brasilianista, os agentes participavam até de assassinatos.

Fachada- ''Esse tipo de colaboração foi muito mais comum do que se imagina. Por baixo da fachada de treinamento de policiais, a CIA sempre conseguiu se infiltrar no Brasil'', afirmou a professora, que está em São Paulo ministrando um curso para estudantes universitários americanos. Martha é professora titular de sociologia do Union College, em Schenectady, estado de Nova Iorque.

Martha investigou a atuação da CIA no Brasil após ter acesso aos documentos secretos do governo americano que foram liberados pelo presidente Bill Clinton. Suas conclusões foram reunidas no livro Polícia e política: Relações Estados Unidos/América Latina, recém-lançado pela Cortez Editora. De acordo com Martha, as autoridades americanas sempre souberam que os agentes da CIA praticavam atividades ilegais no Brasil. A população americana, entretanto, ignorou o assunto.

Os documentos reunidos pela professora comprovaram que a CIA esteve por trás da montagem do Serviço Nacional de Informações (SNI) até mesmo em questões como formação de pessoal qualificado e organogramas. A OPS, escreveu Martha em seu livro, elogiou uma série de atitudes repressivas promovidas pelo governo brasileiro como a instituição da pena de morte e a deposição do vice-presidente Pedro Aleixo, em 1969.

Segunda-feira, 8 de Outubro de 2001 JB

Mortes nos anos 70

Cecília Coimbra, presidente do grupo Tortura Nunca Mais, que investiga e acompanha informações relacionadas às vítimas da repressão política durante a ditadura militar, acredita que a atuação do agente da CIA Robert Hayes no Brasil, entre 1972 e 1976, possa estar relacionada ao aumento do número de militantes de esquerda desaparecidos no país naquele período.

Ela lembra que entre o golpe militar, em 1964, e 1971, houve 30 desaparecimentos, de acordo com dados oficiais. Nos cincos anos seguintes, a lista salta para 136. ''A partir de 1972, o regime brasileiro começou a sofrer críticas crescentes no exterior por causa dos seus métodos, e isso produziu alterações táticas.'' As técnicas para arrancar informações dos presos mudaram, diz. ''A tortura física começou a ser substituída pela tortura psicológica. Ainda havia o pau-de-arara, o afogamento e os choques, é claro. Mas a desestruturação emocional e mental passou a ser usada cada vez mais. Muita gente enlouqueceu por causa disso''. Outra mudança estaria relacionada ao aumento de desaparecimentos. ''Com a pressão internacional, a repressão ficou mais exposta. Passou a ser menos arriscado dar sumiço aos adversários do que mantê-los sob guarda. O plano era pegar, extrair o que fosse possível, executar e fazer desaparecer os corpos''. O jornalista Cid Benjamin, que integrou o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) - organização guerrilheiras que atuava no país -, concorda que a prioridade da repressão a partir de 1970 passou a ser o extermínio dos inimigos do regime. Ele disse ter recebido o aviso de um militar que o acompanhou até a Argélia, aonde foi levado como um dos presos políticos trocados pelo embaixador alemão Von Holleben, que havia sido seqüestrado. O militar lhe recomendou a não voltar ao país porque a repressão seria aumentada. ''Ele estava me avisando que, a partir daquele episódio, a prioridade dos militares era matar'', lembra. Mas Benjamin não relaciona o assassinato de militantes brasileiros com possíveis ações da CIA no Brasil. ''Quem sumiu, sumiu por causa dos militares e agentes brasileiros mesmo''. Cecília e Benjamin citaram os 28 membros do Movimento de Libertação Popular (Molipo). A maioria deles continua desaparecida. Entre 69 e 71, foram capturados à medida em que voltavam de Cuba, onde recebiam treinamento para atuar na luta armada. ''Esse é um dos maiores mistérios de todo aquele período'', diz Cecília. Os integrantes da Molipo eram chamados, nos relatórios internos da repressão, de ''cubanos''.

Creio que isto é medo de represaria por isto despistam a verdadeira essência das mortes

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