Publicado  Folha de S. Paulo de 18 de março de 2001

                      O PLEBISCITO SOBRE A ALCA
                                                                                       Aloísio Mercadante

A ALCA - a Área de Livre Comércio das Américas - é muito mais do que uma 
proposta de liberalização comercial, como está formalmente enunciada. Trata-
se, isto sim, de um projeto estratégico dos Estados Unidos de consolidação de 
sua dominação sobre a América Latina, através de criação de um espaço 
privilegiado de ampliação de suas fronteiras econômicas.

A implantação da ALCA representará o aprofundamento do movimento de abertura 
e desregulamentação econômica e financeira que conduziu ao debilitamento 
político dos estados nacionais latino-americanos e à fragilização de suas 
economias. Não por acaso o processo de integração proposto e já em andamento 
desde a realização da 1ª Cúpula das Américas, em Miami, em dezembro de 1994, 
inclui 9 Grupos de Negociação e três Comitês Especiais, nos quais estão sendo 
decididas as regras e as normas que vão regular desde a redução das barreiras 
tarifárias e as políticas de subsídios, anti-dumping e medidas compensatórias 
até temas extremamente sensíveis, como os investimentos (desregulamentação do 
fluxo de capitais na região e proteção dos investimentos externos de 
eventuais ações dos Estados), as compras governamentais (abertura ao capital 
estrangeiro), a propriedade intelectual (proteção dos interesses das grandes 
corporações, particularmente nas áreas farmacêutica e de biotecnologia) e os 
serviços (abertura ampla aos investidores externos).

A proposta, portanto, atinge todas as áreas, com repercussões tão graves 
quanto previsíveis, dada a enorme assimetria existente entre os Estados 
Unidos e as demais economias da região, não somente em termos de tamanho (o 
PIB norte-americano representa 71% do PIB todo o hemisfério), mas também de 
produtividade, escalas de produção, eficiência e competitividade sistêmica. 

Isso não exclui que algumas economias menores possam obter algumas vantagens 
econômicas, ainda que aprofundando da sua condição de satélite da economia 
norte-americana, ou que algumas poucas empresas ou setores específicos possam 
se beneficiar do processo de integração.

As economias de maior porte, no entanto, têm muito mais a perder do que a 
ganhar com a ALCA. E, dentro delas, o Brasil - uma economia continental com 
vocação multilateral de comércio exterior que não pode ser reduzida a uma 
plataforma de exportação e, além disso, o único país latino-americano com 
condições potenciais de contestar a hegemonia norte-americana na região - 
será o grande perdedor. Nossa estrutura produtiva e de recursos não é 
complementar à norte-americana, ao contrário, somos concorrentes em vários 
segmentos (automotivo, aço, suco de laranja, soja, por exemplo). O nível de 
integração de nosso sistema produtivo, nossas escalas de produção e nossa 
capacidade endógena de desenvolvimento tecnológico são muito menores, o que 
somado às deficiências em nossa infra-estrutura básica, nos coloca em uma 
situação de extrema inferioridade no que se refere à produtividade e 
competitividade global da economia. Nessas circunstâncias, a liberalização 
dos fluxos de mercadorias, serviços e capital tende a ser uma estrada de uma 
só via, com impactos destrutivos sobre a estrutura e dinâmica do sistema 
produtivo nacional.


A experiência dos anos recentes é ilustrativa do que pode vir ocorrer com a 
implantação da ALCA. A abertura comercial radical, acompanhada pela 
sobrevalorização da moeda, promovida pelo Plano Real, além de induzir um 
processo de desindustrialização, gerou perdas significativas no intercâmbio 
comercial do país com o exterior. No período 1994/97, por exemplo, nossas 
exportações para os Estados Unidos cresceram apenas 5,22%, enquanto nossas 
importações daquele país aumentaram em 116,52%. E embora depois da crise 
cambial de janeiro de 1999 se tenham corrigido alguns dos "excessos" da fase 
anterior, o balanço do período 1994/2000 ainda é altamente negativo. 

Para o Brasil, portanto, o problema não é discutir modalidades de integração, 
condições ou prazos da ALCA. A essência do problema é que a ALCA, à margem de 
ganhos eventuais para esse ou aquele grupo, não responde aos interesses 
estratégicos nacionais. Fazer prevalecer esses interesses implica dizer "não" 
a essa proposta que nos fará regredir a uma condição neocolonial. O Brasil 
entrou muito mal na OMC pelas mãos do então ministro Ciro Gomes e dos 
presidentes Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. E está repetindo o 
erro com a assinatura da Carta de Intenções de adesão à ALCA e a ausência de 
iniciativas políticas que detenham o desmonte do Mercosul e promovam a 
discussão de propostas de integração alternativas, que preservem nossa 
identidade e nossa soberania.

A agenda de negociação da ALCA não tem qualquer semelhança com a experiência 
de integração da Europa. A União Européia foi sendo desenhada ao longo de 
mais de 30 anos de negociações, dentro de um espaço econômico 
comparativamente mais homogêneo e incluiu, além da criação de instituições 
continentais, o mercado de trabalho e fundos de compensação para as economias 
mais atingidas pela liberalização comercial. No caso da ALCA não há nenhuma 
dessas condições e o mercado de trabalho continuará separado pelo muro entre 
os EUA e o México. 

Portanto, é fundamental construir uma política de resistência a esse pacto 
neocolonial. Nessa perspectiva apresentamos na Câmara dos Deputados proposta 
para a criação de uma Comissão Especial, que acompanhe e envolva a sociedade 
em tudo relacionado com a ALCA. Com o deputado Henrique Fontana, demos 
entrada em um projeto de realização de um plebiscito popular sobre a ALCA 
para o final das negociações.

A ALCA não é uma fatalidade histórica a que tenhamos que nos submeter e 
dizer "não" à ALCA é um direito soberano do Brasil. Como bem assinala o 
embaixador Samuel Pinheiro Guimarães em entrevistas recentes, isto não 
significa a adoção de uma posição autárquica ou de negação de negociações 
comerciais com os Estados Unidos ou com qualquer outro país ou bloco 
comercial do mundo. Significa somente pautar todas essas negociações pela 
defesa intransigente dos interesses nacionais.

Aloizio Mercadante, 46 anos, economista e professor universitário licenciado 
da PUC e UNICAMP, é deputado federal e secretário de relações internacionais 
do Partido dos Trabalhadores.

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