Domingo, 14 de Outubro de 2001 JB
Coleção de manuais da CIA e FBI é vendida para sebo de Belo Horizonte
A participação dos Estados Unidos na repressão aos poucos começa ser esclarecida, com a divulgação de documentos de policiais de Minas que receberam treinamento da CIA, do FBI e de outras forças policiais americanas. Ex-militante do Colina, Marco Antônio Meyer, dono de uma pequena editora em Belo Horizonte, diz ter ficado surpreso ao saber recentemente que a biblioteca do falecido delegado David Hazam, ex-diretor do Dops, fora vendida pela família a um dos principais sebos de Belo Horizonte.
Formada em sua grande maioria por manuais e informes da CIA e do FBI, a biblioteca de Hazam já havia quase sido toda vendida, quando Meyer soube. Os documentos que sobraram, entre os quais os boletins da Ponto Quatro, escola da polícia americana que ensinava aos policiais mineiros táticas de enfrentamento e dispersão de manifestações, serviram para comprovar uma tese que Meyer defendia desde os tempos de militância política.
''Além de treinar policiais, a CIA e a polícia americana forneciam equipamento de repressão. As bordunas gigantes, usadas para espantar e que eu sentia na pele, vieram da Ponto Quatro. Os aparelhos de choque vinham da CIA e do FBI'', afirma Meyer.
Marighella - Na quinta-feira, ao acompanhar o JB em uma visita ao sebo, Meyer descobriu um estudo do FBI sobre a Ação Libertadora Nacional (ALN) e Carlos Marighella, dirigente da organização que em 1969 foi morto em São Paulo por policiais do Dops comandados pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury. Para Meyer, o estudo do FBI, que considera movimentos guerrilheiros como a ALN ''capazes de jogar bombas contra pessoas inocentes'', mostra que policiais como Hazam, após participar de cursos nos EUA, passavam a trabalhar como colaboradores da CIA e do FBI.
Por meio de cursos e de manuais e informes que recebiam dos Estados Unidos, os policiais mineiros tinham conhecimento de técnicas e métodos de investigação e equipamentos de última geração para combater os grupos de esquerda. O objetivo era conter a expansão da esquerda na América Latina, após a Revolução Cubana, que levou Fidel Castro ao poder em 1959.
Guerrilha - Um dos informes do FBI que citam Marighella foi produzido em julho de 1973, quatro anos após a morte do dirigente da ALN. O texto analisa movimentos de guerrilha urbana que atuavam nos Estados Unidos. Segundo o documento, movimentos como os Panteras Negras usavam dois livros de Marighella como manuais: Marighella: guerrilha, táticas e operações e Minimanual da guerrilha urbana. O brasileiro é definido como um ''teórico da guerrilha urbana''.
Na avaliação do informe, ''o Minimanual de Carlos Marighella é um das mais completas exposições de táticas de guerrilha. Marighella escreveu que ''o principal objeto da emboscada é capturar as armas do inimigo e puni-lo com a morte''.