http://www.fenapef.org.br/htm/com_noticias_exibe.cfm?Id=41878                  

Amazônia tem invasão confirmada pela Abin
Militares apontam ameaças

30/01/2007

Tales Faria
BRASÍLIA. "Foi confirmado o conhecimento de que a questão indígena atinge uma gravidade capaz de pôr em risco a segurança nacional. Considerando a atual reivindicação de autonomia e a possibilidade de futura reivindicação de independência de nações indígenas, o quadro geral está cada vez mais preocupante, especialmente na fronteira norte. As organizações não governamentais (ONGs), algumas controladas por governos estrangeiros, adquiriram enorme influência, na maioria das vezes usada em benefício da política de suas nações de origem, em detrimento do Estado brasileiro. Na prática, substituem, nas áreas indígenas, o governo nacional."

O trecho acima faz parte do "Relatório de Situação" elaborado pelo Grupo de Trabalho da Amazônia (GTAM) no primeiro semestre de 2006. Foi distribuído entre integrantes e colaboradores do chamado Sistema Brasileiro de Inteligência, cujo órgão central é a Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Na nova versão do relatório, os militares não só reafirmam as suspeitas de que ONGs e entidades religiosas estrangeiras estão tomando a Amazônia, como apontam novos fatos. Alguns assustadores:

"Quanto à presença militar estadunidense na Amazônia, um componente relativamente novo na questão da segurança da região amazônica brasileira é a crescente presença de assessores militares estadunidenses e a venda de equipamentos sofisticados às Forças Armadas colombianas, pretensamente para apoiar os programas de erradicação das drogas, mas que podem ser utilizados no combate às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e ao ELN (Exército de Libertação Nacional). A presença militar estadunidense, que já se estende à Guiana, ao Equador, ao Peru, à Bolívia e, recentemente, ao Paraguai - aproveitando-se do vazio de nossa política externa em relação àquele país - por meio da utilização de bases militares, poderá se expandir a outros países sul-americanos para transformar a luta contra a droga (e contra as Farc e o ELN) em uma empreitada militar sul-americana, e não apenas colombiano-estadunidense. O plano provavelmente faz parte da estratégia dos EUA para assegurar presença militar direta na região andino-amazônica e no cone sul, em torno do Brasil."

A "presença e atuação de estrangeiros" na Amazônia é um dos pontos tratados com destaque pelo GTAM, que levanta suspeitas de espionagem até mesmo na base aérea de Alcântara, no Maranhão. Para quem não lembra: 21 trabalhadores do CTA (Centro Técnico Aeroespacial) de São José dos Campos (SP) morreram na explosão do terceiro protótipo do VLS-1 (Veículo Lançador de Satélite) na plataforma do Centro de Lançamento de Alcântara, em agosto de 2003. Na visita que fizeram a Alcântara em 2006, os membros do GTAM desconfiaram do excesso de estrangeiros naquela cidadezinha:

"Especial preocupação é o número de estrangeiros nas proximidades da base de lançamentos de Alcântara, no Maranhão. Segundo fontes da polícia do Estado, havia 116 estrangeiros em 15 de maio em Alcântara (MA), dia da visita do GTAM. Não foi possível saber quais as atividades que desenvolviam, tendo em vista que não haveria atividade no Centro de Lançamentos. Os altos índices de exclusão social presentes na cidade de Alcântara deixam a comunidade que ali reside exposta e fragilizada a tentativas de aliciamento e recrutamento por parte de ONGs e agentes a serviço de países que muito teriam a perder com os sucessos dos lançamentos da Base de Alcântara."

Documento expressa consenso da Inteligência

O GTAM é um colegiado composto por representantes da Abin e dos órgãos de informações das Forças Armadas e do Departamento de Polícia Federal. Sua função é sistematizar as chamadas atividades de inteligência na Amazônia. Realiza duas viagens anuais à área e elabora os textos com a opinião consensual do grupo.

Em 2005, o jornal "O Estado de S.Paulo" publicou um desses relatórios - assinado pelo coronel Gelio Augusto Fregapani, então lotado na Abin em Brasília e agora superintendente do órgão em Roraima -, o que provocou uma forte reação das ONGs e de entidades religiosas que atuam na Amazônia. O Jornal do Brasil obteve agora a versão mais recente do relatório - explicitamente "vedado à imprensa" - que trata das conclusões das viagens realizadas no primeiro semestre 2006. Veja a íntegra do texto de 16 páginas no site www.jbonline.com.br. O novo "Relatório de Situação" não é mais assinado pelo coronel da Abin, já que o texto se tornou de responsabilidade de todos os integrantes do GTAM.

Bantustans, chiapas e curdistões no Brasil

Tales Faria

BRASÍLIA.Apesar da polêmica provocada no início de 2005 pelo vazamento de seu primeiro relatório, o Grupo de Trabalho da Amazônia (GTAM) não diminuiu suas críticas à atuação das organizações não-governamentais (ONGs) no texto sobre a situação da Amazônia no primeiro semestre de 2006. Muito pelo contrário. Alerta para o fato de que a parte norte da Amazônia brasileira "permanece como um território virtual para o Brasil". E que a luta das ONGs para aumentar as reservas indígenas ameaça a integridade do territorial do país:

"Algumas terras indígenas tendem a se transformar em bantustans, outras em curdistões, quando contíguas a áreas com mesma etnia no outro lado da fronteira".

Bantustans são os territórios criados pelo antigo regime racista da África do Sul para segregar os negros. Nessas terras, que ficavam dentro do país, as populações negras podiam circular mais livremente e ter até certa autonomia administrativa. Com o tempo, alguns bantustans declararam sua independência da África do Sul. Os europeus costumam dizer que o Curdistão é uma nação sem pátria. Um povo que se espalha ao longo da fronteira de cinco países: Irã, Iraque, Turquia, Síria e Armênia. Parte dos curdos já foi alvo de massacre, por exemplo, ordenado pelo ex-ditador Saddam Hussein, enforcado no início do ano pelo assassinato de mais um centena de xiitas que vivem no Iraque.

O relatório do GTAM mostra um mapa da fronteira norte do país com as reservas indígenas. Aquelas que estão totalmente dentro de nossas fronteiras são as que o GTAM teme se transformarem em verdadeiros bantustans. E a área de etnia ianomani, que fica em Roraima e no Amazonas e se estende até a Venezuela, seria o embrião de um novo Curdistão. Diz o relatório do GTAM:

"Embora seja difícil fazer uma separação nítida, foram ouvidas opinião abalizadas de que as ONGs de origem britânica e norte-americana tendem a procurar criar condições de futura independência das 'nações' indígenas, enquanto outras ONGs, inclusive apoiadas pela Alemanha e as de orientação religiosa, tendem a procurar uma autonomia diferenciada, no estilo da região de Chiapas, do sul do México." Em tempo: Chiapas é um território que foi tomado pelo movimento Zapatista de contestação ao regime político mexicano.

Fonte: Jornal do Brasil - 29/01/2007

 

 

O relatório do GTAM deixa claro que há uma forte presença dos EUA em praticamente todos os países vizinhos ao Brasil, especialmente na região amazônica. E relaciona essa presença a um quadro de desestruturação e fragilização dos governos e das sociedades locais:

"Os Estados da região foram induzidos a promover reformas para reduzir o efetivo e a influência das Forças Armadas, cuja tendência nacionalista poderia prejudicar a execução da nova estratégia econômica neoliberal. Assim, a situação nesses países apresenta características muito semelhantes - longa estagnação ou lento crescimento econômico, compromissos externos elevados, alta vulnerabilidade a flutuações externas, desarticulação do Estado, pressão externa renovada para que adote políticas ainda mais neoliberais, frequentemente causando desemprego elevado, crime organizado e violência urbana".

Com base nessa avaliação em bloco, o relatório traça um quadro caso a caso, nos países vizinhos à Amazônia. Veja a seguir algumas dessas avaliações.

Venezuela

"A hostilidade entre os governos da Venezuela e dos Estados Unidos vem se agravando paulatinamente e deve se agravar mais ainda. O governo de Hugo Chavez sofre os efeitos de uma operação internacional da mídia que procura caracterizá-lo como louco e ditatorial. (...) Pode-se esperar que os Estados Unidos se esforcem para minar o governo venezuelano e mesmo, se houver condições, contribuir para sua derrubada. Mas não se espera uma atitude militar nem mesmo sanções econômicas devido à grande dependências de ambos à produção venezuelana de petróleo. (...) As disputas entre Colômbia e Venezuela tenderão a se agravar a partir da violação de fronteiras, do eventual homízio de guerrilheiros colombianos e da aceleração da emigração, criando risco de surgimento de movimentos cuja reação seria difícil de prever, mas que forneceriam o desejado pretexto para intromissões internacionais."

Colômbia

"há um forte envolvimento estadunidense na guerra civil" e, apesar da divulgação de que teria havido redução global das zonas de plantio de coca no país, "há indícios de que os produtores abandonaram o método de cultivo em grandes plantações e adotaram técnicas de pequenas culturas no interior da selva, dificultando a detecção por satélite e a aspersão de herbicidas". O país já estaria inserido na produção de heroína, com capacidade de produção para atender à demanda por consumo da droga dos EUA. O GTAM alerta ainda que já "há suspeitas de plantações de papoula no Equador, na Bolívia e na Venezuela". Tudo para atender ao consumo norte-americano.

Equador

"O profundo e histórico ressentimento da maioria indígena contra a minoria branca é capaz de colocar em cheque o sistema político tradicional, enquanto o Estado faz acordos com os EUA para utilização militar da base aérea de Manta para apoiar o Plano Colômbia, o que envolve o Equador na explosiva situação colombiana."

República Guiana

(ex-Guiana Inglesa)

"Pode-se prever, em longo prazo, a inevitabilidade de conflitos com a Venezuela e com o Suriname por terras tomadas no tempo do domínio britânico. Conforme o resultado desse previsível conflito, as terras (hoje da Guiana) tomadas ao Brasil ou ficariam em posse da Venezuela ou a Guiana ficaria em dois pedaços separados por uma faixa venezuelana. Considerando que a população brasileira foi expulsa da área somente no terceiro quartel do século 20, a ferida ainda está aberta e a população de Roraima pode não ser indiferente a uma retomada.

Guiana Francesa

"É um caso à parte, pois se encontra sob domínio colonial da França, que a considera parte integral do território francês, como se a Guiana se encontrasse na Europa continental." No início do relatório, os membros do GTAM já haviam ressaltado que "da pressão internacional sobre a região, basta lembrar que em 1989 o presidente francês (François) Mitterrand afirmou que o Brasil precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia".

www.resistenciabr.org